Ideias e liberdade


    Lutando contra um fantasma

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    Conhyrad

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    Lutando contra um fantasma

    Mensagem por Conhyrad em Sex Jan 03, 2014 1:53 pm

    Sempre que um intelectual esquerdista do Terceiro Mundo abre a boca para atacar a “direita”, o mínimo que se pode esperar da sua performance é uma confusão dos diabos. Desde logo, o objeto das suas imprecações não existe substancialmente: é uma sombra projetada pela aglomeração casual de entidades diversas que, por motivos heterogêneos e não raro incompatíveis entre si, atravessaram o caminho do processo revolucionário. Para não admitir que dispara a esmo contra alvos dispersos, que simplesmente odeia toda sorte de discordâncias venham de onde vierem, ele tem de inventar por trás desse caleidoscópio de diversidades a unidade fictícia de uma impossível “internacional direitista”, fundindo num só corpo de intenções, concepções ideológicas e planos estratégicos o nazismo e o sionismo, o Papa e a Maçonaria, os libertarians e os saudosistas do Ancien Régime, o racismo evolucionista e o fundamentalismo evangélico, e até – no caso brasileiro – as facções da própria esquerda que, por um restinho de escrúpulos democráticos, se oponham a tal ou qual medida governamental do dia. Mesmo uma inteligência mediana basta para perceber que essas várias correntes são tão estranhas umas às outras que a simples hipótese de se sentarem em torno de uma mesa para discutir suas divergências é utópica no mais alto grau; mas o esquerdista tem de descer abaixo do mediano para poder continuar acreditando que luta contra um inimigo determinado e não, como de fato ocorre, contra todo o restante da espécie humana.
    É certo que a esquerda também tem suas contradições e antagonismos internos, mas, de um lado, isso nunca impediu que suas facções diversas mantivessem um intenso diálogo e se unissem, a todo instante, para iniciativas de envergadura mundial que surpreendem pelo sinergismo dos objetivos e pela simultaneidade dos meios. De outro lado, é fato notório que, entre os “direitistas”, só uns poucos consentem em perceber os sinais dessa unidade estratégica e organizacional que prevalece sobre todas as dissensões ideológicas e táticas; a maioria prefere enfatizar as diferenças e incompatibilidades, na esperança louca de dividir as forças do adversário, sem notar que qualquer concessão feita a uma das facções da esquerda resulta sempre, mais cedo ou mais tarde, em vantagem para todas elas. Se o esquerdista insiste em enxergar o que não existe, o direitista em geral recusa-se a enxergar o que existe; fato que, por si mesmo, já reflete a homogeneidade de um lado e a heterogeneidade do outro. Pois, afinal, todas as correntes de esquerda remontam à fonte comum de uma teoria unificada da História, enquanto as raízes da “direita” são diversas e incompatíveis na origem, como o Papado e a Reforma, o evolucionismo e o evangelismo, o individualismo liberal de Adam Smith e o organicismo social de Adam Müller, o nacionalismo extremado dos fascistas e o globalismo da elite bancária.

    O fato, porém, de que o monstro direitista seja uma entidade inexistente, de que portanto o discurso ideológico esquerdista seja perfeitamente fictício, não implica nenhuma desvantagem para a política de esquerda. Ao contrário: como todo discurso ideológico, esse não visa a descrever uma realidade, mas a fundar e reforçar a identidade do grupo militante, o que, é claro, se obtém muito mais facilmente brandindo diante dele a imagem odiosa de um fantasma do que forçando-o a um confronto desnorteante com a complexidade dos fatos. A unidade fictícia do fantasma projeta-se retroativamente sobre a mentalidade do grupo, exercendo sobre ela um influxo não só unificante, mas encorajador: quem não parte para o combate com mais bravura quando carrega num recanto obscuro da alma a suspeita secreta de que o adversário é de brinquedo?
    O impulso incoercível de projetar o ódio do grupo contra unidades fictícias cresce às vezes até as dimensões do mais grotesco hiperbolismo, desembocando na total desconexão psicótica com a realidade ambiente, mas sem que por isso seu efeito sobre a platéia se atenue no mais mínimo que seja. A diatribe recente da Profª Marilena Chauí contra a classe média exemplifica-o com a maior nitidez. A imagem da pequena burguesia como classe intrinsecamente reacionária, produtora, na melhor das hipóteses, de intelectuais revolucionários vacilantes e indignos de confiança, é um dos chavões mais antigos da retórica marxista. Aparece, volta e meia, nos escritos de Lênin, Stálin, Mao e tutti quanti. A Profª Marilena não fez senão repeti-lo pela milionésima vez, com a diferença de que o fez, sem notar nenhuma incongruência, para uma platéia constituída integralmente de membros da classe condenada e em nome de um partido cujos militantes e eleitores são recrutados eminentemente nessa mesma classe. Isso não impediu que fosse aplaudida por ouvintes que, igualando o nível de alienação da conferencista, nem de longe se sentiram envolvidos na generalização depreciativa em que ela os enquadrava.
    Não, não venham me falar de paralaxe cognitiva. Inventei esse termo para descrever o deslocamento entre o eixo da construção teórica e o da experiência direta tal como esse fenômeno aparece em sistemas complexos de filosofia, onde erros dessa natureza podem passar despercebidos até a grandes inteligências. A alienação grosseira e burra está em outro nível: tem a ver com a histeria militante e não com a vida intelectual, seja saudável, seja doente. Com a ressalva de que, na ordem da militância revolucionária, a histeria não é uma doença, um desvio, mas a essência mesma do fenômeno, como já ensinavam Erik von Kuehnelt-Leddihn e o psiquiatra polonês Andrej Lobaczewski.

    Fonte: http://www.midiasemmascara.org/artigos/movimento-revolucionario/14150-lutando-contra-um-fantasma.html


    Opinião

    A 'internacional direitista', entidade inexistente criada pelo imaginário esquerdista que abriga todo e qualquer ser humano que discorde, mesmo que em pequena quantidade, das ideias defendidas pelo movimento esquerdista, é muito útil no controle e na manutenção da militância histérica quando acompanhada de um texto e/ou discurso de um "intelectual" igualmente histérico que comente essa reunião apocalíptica de toda a direita e também a sua fútil fragilidade diante dos ideais altamente morais da esquerda militante pois isso tem três efeitos na mente dos militantes:

    • Causa medo e receio nos praticantes da militância. Ao enaltecer a grandeza do inimigo e seu iminente e poderoso ataque, o "intelectual" motiva indiretamente que os militantes e 'companheiros de luta' sintam temor e hesitação frente a tal pendente e ameaçadora investida do inimigo. Mas também causa outra coisa: a união. Ao se sentirem ameaçados, eles se sentem mais "do grupo" e se unem contra o inimigo, mesmo que ele seja apenas uma invenção esquizofrênica.
    • Motiva a coragem e a "bravura" entre os militantes. Ao esclarecer a fraqueza e esterilidade do inimigo, o "intelectual" acaba encorajando os militantes a se sentirem vitoriosos e superiores diante de tão fraco e inútil adversário, o que os faz se sentirem também seguros e triunfantes. E, como disse o autor do artigo, "quem não parte para o combate com mais bravura quando carrega num recanto obscuro da alma a suspeita secreta de que o adversário é de brinquedo?"
    • Além de tudo isso, o discurso do "intelectual" reforça a ideologia e a personalidade do grupo militante como um todo, ao exaltar a digna qualidade moral superior dos ideais esquerdistas, o que ocasiona no sentimento, por parte dos integrantes do grupo, de estarem defendendo a sociedade e um futuro melhor e mais próspero á ela. (Eles não poderiam estar mais enganados. Ou poderiam?)

    Toda essa história de 'internacional direitista' (termo exemplar) não passa de pura balela demagógica, já que a direita é extremamente desorganizada, desunida e muitas vezes contraditória entre si, ao contrário da esquerda que tem, na maioria dos casos, uma única diferença entre si: o grau. Enquanto a direita difere muito por conceitos e definições, a maioria da esquerda difere apenas em grau. (Isso eu deixo para outra hora, em outro artigo, ou para algum comentário de um colega)

      Data/hora atual: Ter Jun 19, 2018 4:43 pm