Ideias e liberdade


    Heróis da Liberdade

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    Conhyrad

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    Heróis da Liberdade

    Mensagem por Conhyrad em Seg Dez 30, 2013 1:24 am

    Pobre do país que não tem heróis. Miserável país aquele que precisa de heróis. Será que Brecht estava certo quanto a esta profunda desconfiança com relação à necessidade de se criar heróis? O dramaturgo alemão nutria verdadeira ojeriza por mártires, pessoas dispostas a morrer pela causa. Mas será que Martin Luther King Jr. estava errado então, quando disse: “Se você não descobre uma causa pela qual valha à pena morrer, é porque você não está pronto para viver”?
    Confesso não ter forte opinião formada sobre o assunto. Sempre tive uma tendência à iconoclastia, para ser sincero. Derrubar mitos era um hobby meu desde cedo. Sabendo-se que de muito perto nenhum ser humano resiste imune à lupa da moral, pois somos todos criaturas imperfeitas, a tarefa não era das mais impossíveis. Mas o iconoclasta é um destruidor com seu severo martelo, e o mundo, os homens e as boas causas necessitam de construtores, pessoas dispostas a enxergar o lado bom das coisas. Até que ponto os heróis, ainda que imperfeitos, não são cruciais ao mundo?
    Entendo o receio que desperta nos mais céticos qualquer tipo de culto ao herói. Ele facilmente se transforma em culto à personalidade, um passo próximo demais da tirania. Nietzsche, que era um típico iconoclasta, coloca o dedo na ferida em O Anticristo, ao alertar:

    A morte dos mártires, seja dito de passagem, foi uma grande desgraça na história; seduziu... Os mártires prejudicaram a verdade... Ainda hoje não se necessita senão de certa crueza na perseguição para proporcionar a quaisquer sectários uma honrosa reputação. Como? Pode uma causa ganhar em valor se qualquer uma lhe sacrifica a sua vida? É, pois, a cruz um argumento? Escreveram sinais de sangue no caminho que percorreram, e a sua loucura ensinava que com o sangue se atesta a verdade. Mas o sangue é a pior testemunha da verdade; o sangue envenena a mais pura doutrina e transforma-a em loucura e em ódio nos corações. Quando alguém se atira ao fogo pela sua doutrina, que prova isso? Mas verdade é que do próprio incêndio surge a própria doutrina.

    Creio que não podemos ignorar estes riscos. Basta olhar para a história e verificar quanta atrocidade foi praticada em nome de mártires, de “heróis imaculados” que criaram verdadeiras seitas de seguidores fanáticos, deixando um rastro de sangue no caminho. Mas acho que também existe o outro lado da história. Graças aos atos heróicos de alguns indivíduos, o curso dos acontecimentos foi alterado para melhor. Podemos pensar em todos os corajosos que enfrentaram déspotas e contribuíram para a libertação de seus povos. Gandhi, os “pais fundadores” dos Estados Unidos, os abolicionistas. Precisamos de heróis, afinal?
    O liberalismo tem seus heróis. Como não poderia deixar de ser, não há nada que se assemelhe ao culto à personalidade que vemos em ideologias populistas e coletivistas. O liberalismo, por definição, valoriza a liberdade individual e o indivíduo. Logo, não combina com a glorificação de ícones, de “messias salvadores” que vieram criar um “novo mundo”. Os maiores heróis do liberalismo sempre serão os milhões de anônimos, as pessoas comuns que labutam diariamente, de forma honesta, e colaboram com o progresso da sociedade. Isso não impede, porém, que os liberais possam enaltecer alguns gigantes da causa. Penso ser até mesmo saudável que o façam, com cautela, pois o bom exemplo serve de inspiração.
    Os heróis da liberdade funcionam como um farol que ilumina o norte, o caminho a ser seguido por outros que desejam construir um mundo com mais liberdade, ainda que sempre imperfeito. Sejam pensadores, que colaboraram com a robustez dos argumentos liberais; ou estadistas, que meteram a mão na massa e, de forma menos pura, deram passos importantes na direção certa, todos merecem o reconhecimento por sua parcela de contribuição na infindável luta por mais liberdade. Hayek, Mises, Milton Friedman, Karl Popper e tantos outros no primeiro time; Ronald Reagan e Margaret Thatcher com merecido destaque no segundo. A lista, felizmente, é longa.
    O herói de um será o vilão do outro, naturalmente. Não é possível chegar ao consenso aqui. Devemos concordar em divergir, e que cada um alimente a admiração por seus próprios heróis. Mas tendo a concordar com os pontos principais que o historiador Paul Johnson, em Os Heróis, distingue como essenciais para o reconhecimento dos heróis de hoje. São eles:
    Primeiro, pela absoluta independência mental, que surge da capacidade de pensar tudo por si mesmo, e tratar com ceticismo qualquer consenso corrente sobre qualquer questão. Segundo, após decidir-se de forma independente, agir – com decisão e coerência. Terceiro, ignorar ou rejeitar tudo que os meios de comunicação lançam sobre nós, desde que permaneçamos convencidos de que estamos agindo certo. Finalmente, agir com coragem pessoal o tempo todo, independentemente das conseqüências para nós mesmos.

    Para Paul Johnson – e eu concordo –, não há substituto para a coragem quando se trata de atos heróicos. Um maluco que enfrenta uma matilha de cães raivosos não é corajoso, pois desconhece o perigo. O viciado em adrenalina que testa a sorte o tempo todo, brincando com a morte, tampouco é um corajoso, mas sim suicida. Coragem é quando sabemos dos riscos envolvidos, sentimos medo, e mesmo assim decidimos agir. Nas palavras de Paul Johnson, a coragem é “A mais nobre e melhor de todas as qualidades, e o único elemento indispensável em todas as diferentes manifestações”.
    O liberalismo, especialmente no Brasil, um país com forte tradição antiliberal, precisa urgentemente de pessoas com coragem para defendê-lo. A reação dos grupos de interesse será forte. Sindicalistas e pelegos incrustados no poder, políticos corruptos, empresários aliados do governo corrupto, funcionários públicos com fartos privilégios, intelectuais engajados, a lista de pessoas atingidas pelas necessárias reformas liberais é grande, e não devemos esperar outra coisa senão uma virulenta ou mesmo violenta reação. Mas não devemos esmorecer. O preço da liberdade é a eterna vigilância. Esta, por sua vez, exige coragem. E o liberalismo brasileiro precisa de seus heróis. Mãos à obra!

    Fonte: http://rodrigoconstantino.blogspot.com.br/2012/05/herois-da-liberdade.html


    Opinião

    Lamentavelmente, e como explicitado pelo autor, muitos ditos heróis e mártires de uma causa agregaram seguidores e causaram morte, miséria e terror em todo o mundo. Isso foi (é, e será) causado pelo seguinte motivo, que fica bem claro na seguinte citação de Nietzsche:

    " Pode uma causa ganhar em valor se qualquer uma lhe sacrifica a sua vida?"

    Pessoas que se sacrificam por uma causa acabam dando crédito e força tanto ás pessoas que se sacrificaram quanto ás causas por elas defendidas, e isso também acaba dando, de certa forma, um senso de moralidade aos seus seguidores, que pensam estar defendendo algo digno e honrado. Muitas vezes o discurso dos mártires é repleta de vitimismo, idealismo ás vezes fanático e esperança por um futuro melhor, que acaba por seduzir as pessoas incultas (dependendo das pessoas, essas orações "martíricas" envenenam até as mentes mais aguçadas do local)
    Mas, também como disse o autor, há heróis mais benevolentes, que não tiveram suas imagens manchadas com sangue e tragédias, como a absoluta maioria dos ideólogos e filósofos conservadores e liberais do mundo todo, que defendia a liberdade e a democracia, assim como os que colocaram essas ideias em prática, em alguns poucos lugares do planeta.

    O Brasil não tem nenhum desses heróis por um motivo que o autor do texto cutucou: Muita gente depende do Estado e "mama nas tetas do governo". Desde empresários que tem como muleta o BNDES, que dá empréstimos que muitas vezes perdoa e não cobra de volta, até "intelectuais" acadêmicos que recebem bolsas do estado e não fazem nada além de ler Marx e Foucault. Toda essa "massa" antiliberal brasileira muitas vezes é composta por preguiçosos que tem medo de perder o sustento, que é um instinto básico humano: Ninguém quer abandonar/matar/derrubar seu provedor. Assim como um empregado/empregador que defende a empresa em que trabalha, trabalhando mais, sendo mais produtivo, ou coisas parecidas, para garantir seu lugar na empresa que paga pelo seu trabalho, que o sustenta, esses antiliberais defendem o Estado que paga pelos seus "trabalhos", lhes dá benefícios, ajuda, privilégios, etc.


    Agradecimentos a Dom Casmurro.

      Data/hora atual: Sab Abr 21, 2018 11:43 pm